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Contos e crônicas.

Apartamento com cara de casa

A população brasileira vive um momento de transformação do hábito de morar. Nos últimos anos, houve um aumento de 28% no número de apartamentos no país, enquanto nossa população cresceu apenas 12%. Com isso, tem sido cada vez mais comum encontrar pessoas que moram em apartamentos e sentem falta dos costumes que mantinham em casa, como receber grupos para confraternizações, ter uma horta, ou criar animais de estimação.

E essa demanda tem impactado diretamente no projeto de arquitetura, seja de apartamentos grandes ou pequenos. Atualmente há soluções de baixo custo que permitem ampliar a sala, possibilitando receber grupos maiores, ou recursos com custos medianos que permitem a criação de varanda com churrasqueira, liberando novas possibilidades aos apartamentos.

Para ilustrar esses casos, temos um projeto que desenvolvemos para um apartamento em Boa Viagem, cidade de Recife, com 160m², uma planta bem espaçosa, com uma sala de estar ampla, porém com uma varanda pequena. A ideia dos nossos clientes, um casal jovem até então sem filhos, era um espaço amplo para receber grupos de amigos. Eles queriam uma área que possibilitasse fazer churrascos, jogar videogame em grupo, assistir eventos esportivos, etc.

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Planta baixa do apartamento – Antes e Depois da reforma

Dessa forma, optamos por diminuir a sala de estar, que era muito grande, mas mantendo-a com um tamanho muito confortável (34m²) e ganhamos área para a varanda gourmet, que ficou com um total de 20m². Esta nova área ganhou um tratamento diferenciado em relação ao restante do apartamento, ficando com um ar mais despojado, com cores mais vivas, mobiliário de jardim e flexibilidade de layout, podendo atender a usos diferentes do espaço.

Varanda gourmet

Varanda gourmet Varanda gourmet-recife-boa viagemVaranda gourmet

Esse tipo de solução demonstra que com criatividade, e até com pouco dinheiro, é possível amenizar a saudade de morar em casa e facilitar a nossa adaptação aos apartamentos.

Se quiser conhecer um pouco mais sobre este projeto, temos mais informações e imagens em nosso site. Entra lá: www.elementararquitetura.com/projeto/apartamento-boa-viagem-dois

 

O caso Estelita

Foto: Manoela Pires

Vista aérea do Cais José Estelita

A cidade do Recife está enfrentando uma discussão acalorada sobre seu planejamento urbano. E o objeto centro deste debate está sendo o Projeto Novo Recife, desenvolvido por um consórcio de construtoras, para o Cais José Estelita. A área em questão, um lote de mais de 10ha, se notabiliza por um forte caráter histórico, com edificações tombadas no interior do lote, além da proximidade com o Centro Histórico do Recife. A área ainda apresenta uma importância vital para a mobilidade metropolitana da cidade e, por último, um grande potencial paisagístico devido à proximidade com a frente do Rio Capibaribe, o mais importante da cidade.

Antes de começar a argumentação, é importante frisar o quanto nos deixa felizes pertencermos a uma cidade onde a população está brigando por uma cidade melhor. Onde os seus habitantes decidiram não esperar passivamente pelo poder público, porque este já demonstrou toda a sua insensibilidade e incompetência quanto a planejamento urbano nos últimos anos. A discussão popular de temas de interesses coletivos é um dos maiores indicadores do esclarecimento de uma população.

Nesta discussão especificamente, há dois lados: os que aprovam o Projeto Novo Recife e os que o condenam. No entanto, não há um antagonismo de quereres entre as partes. Ambos querem uma cidade melhor, e isso deveria nos unir. Acontece que uns defendem a cidade a partir de argumentos citadinos, coletivos e com elevada preocupação social, enquanto outros se amparam em argumentos de defesa à iniciativa privada, viabilidades econômicas e à legalidade.

Ora, uma coisa não está condicionada à recusa e inexistência da outra. Esta dicotomia não faz sentido e não é saudável para a cidade. O mundo está repleto de exemplos onde todas essas questões levantadas convivem harmoniosamente. O Recife tem se desenvolvido nos últimos anos com um desequilíbrio desses fatores que tem prejudicado, em ritmo acelerado, a vida de todos os seus habitantes. E isso independe de classe social ou bairro onde mora. É impensável que quem more em algum dos bairros que sofreram o “boom” do mercado imobiliário acredite que seu bairro melhorou.

Nos últimos anos, o recifense se acostumou a ficar parado no trânsito, a enfrentar alagamentos, andar em calçadas estreitas e degradadas, ruas mal iluminadas e repletas de muros, com o medo de ser assaltado, a degradação do patrimônio histórico, a precariedade do transporte público, entre outras dificuldades. Tudo isso está diretamente relacionado com o modo como nossa cidade se planeja e desenvolve.

O Projeto Novo Recife apresenta uma solução engessada, baseada no “time que tá ganhando não se mexe”, repetindo um produto que o mercado imobiliário implanta indiscriminadamente em toda a cidade. Não há uma reflexão urbana do empreendimento. A iniciativa privada está acostumada a construir assim e os arquitetos estão acostumados a não questionar as incorporadoras/construtoras. Mas eles não são os vilões. Uma empresa particular não tem a obrigação de pensar coletivamente. Esse comprometimento é do poder público. Ele tem de pensar a cidade de uma forma plural e ampla, balizando os interesses privados de acordo com o interesse coletivo. Recife está acostumada a este modelo de “desenvolvimento”, que envolve a iniciativa privada e o poder público, comprovadamente falho. Basta andar em nossa cidade para ver.

Então por que não pensar em um novo modelo? Por que não questionar, refletir e discutir uma nova forma de pensar a cidade? Vamos pensar fora da caixa, não é crime. As pessoas de ideias estagnadas acabam por discriminar quem está “cometendo o crime” de pensar algo novo. A discordância é natural, e até salutar, enquanto houver argumentos. O que não pode acontecer é a preguiça de pensar se contrapor a quem pensa!

E nesse contexto, o Projeto Novo Recife é a oportunidade de trazer a discussão do planejamento urbano à tona. O lote, por tudo que foi listado no início do texto, tem um protagonismo urbano que o transforma no melhor objeto de discussão dessa pauta. O tema é tão nobre que não interessa onde estávamos quando aconteceram outras aberrações aqui na cidade. Pouco importa. A verdade é que, a partir do nosso esclarecimento, estamos cobrando uma cidade melhor. E todos devem cobrar!

Para os que não se aprofundaram no tema, vale a reflexão. Converse com arquitetos e urbanistas, pesquise na internet como se desenvolvem outras cidades, leia outras mídias além dos medalhões, não se influencie com propaganda enganosa e nem se convença sem ponderação. Questione e busque esclarecimento. A cidade precisa que você reflita e diga o que espera dela. E depois de refletir, cobre! Nós já vimos que não adianta esperar que a nossa cidade caia do céu. Até porque antes de tocar o chão, ela precisa passar por cima de muita coisa.

Leitura complementar

http://goo.gl/VLJgMU Um breve resumo

http://goo.gl/sx6r3J Nada mais subdesenvolvido que o Novo Recife

http://www.novorecife.com.br/ A proposta do Consórcio

http://penserecife.tumblr.com/ Uma proposta alternativa