O caso Estelita

Foto: Manoela Pires

Vista aérea do Cais José Estelita

A cidade do Recife está enfrentando uma discussão acalorada sobre seu planejamento urbano. E o objeto centro deste debate está sendo o Projeto Novo Recife, desenvolvido por um consórcio de construtoras, para o Cais José Estelita. A área em questão, um lote de mais de 10ha, se notabiliza por um forte caráter histórico, com edificações tombadas no interior do lote, além da proximidade com o Centro Histórico do Recife. A área ainda apresenta uma importância vital para a mobilidade metropolitana da cidade e, por último, um grande potencial paisagístico devido à proximidade com a frente do Rio Capibaribe, o mais importante da cidade.

Antes de começar a argumentação, é importante frisar o quanto nos deixa felizes pertencermos a uma cidade onde a população está brigando por uma cidade melhor. Onde os seus habitantes decidiram não esperar passivamente pelo poder público, porque este já demonstrou toda a sua insensibilidade e incompetência quanto a planejamento urbano nos últimos anos. A discussão popular de temas de interesses coletivos é um dos maiores indicadores do esclarecimento de uma população.

Nesta discussão especificamente, há dois lados: os que aprovam o Projeto Novo Recife e os que o condenam. No entanto, não há um antagonismo de quereres entre as partes. Ambos querem uma cidade melhor, e isso deveria nos unir. Acontece que uns defendem a cidade a partir de argumentos citadinos, coletivos e com elevada preocupação social, enquanto outros se amparam em argumentos de defesa à iniciativa privada, viabilidades econômicas e à legalidade.

Ora, uma coisa não está condicionada à recusa e inexistência da outra. Esta dicotomia não faz sentido e não é saudável para a cidade. O mundo está repleto de exemplos onde todas essas questões levantadas convivem harmoniosamente. O Recife tem se desenvolvido nos últimos anos com um desequilíbrio desses fatores que tem prejudicado, em ritmo acelerado, a vida de todos os seus habitantes. E isso independe de classe social ou bairro onde mora. É impensável que quem more em algum dos bairros que sofreram o “boom” do mercado imobiliário acredite que seu bairro melhorou.

Nos últimos anos, o recifense se acostumou a ficar parado no trânsito, a enfrentar alagamentos, andar em calçadas estreitas e degradadas, ruas mal iluminadas e repletas de muros, com o medo de ser assaltado, a degradação do patrimônio histórico, a precariedade do transporte público, entre outras dificuldades. Tudo isso está diretamente relacionado com o modo como nossa cidade se planeja e desenvolve.

O Projeto Novo Recife apresenta uma solução engessada, baseada no “time que tá ganhando não se mexe”, repetindo um produto que o mercado imobiliário implanta indiscriminadamente em toda a cidade. Não há uma reflexão urbana do empreendimento. A iniciativa privada está acostumada a construir assim e os arquitetos estão acostumados a não questionar as incorporadoras/construtoras. Mas eles não são os vilões. Uma empresa particular não tem a obrigação de pensar coletivamente. Esse comprometimento é do poder público. Ele tem de pensar a cidade de uma forma plural e ampla, balizando os interesses privados de acordo com o interesse coletivo. Recife está acostumada a este modelo de “desenvolvimento”, que envolve a iniciativa privada e o poder público, comprovadamente falho. Basta andar em nossa cidade para ver.

Então por que não pensar em um novo modelo? Por que não questionar, refletir e discutir uma nova forma de pensar a cidade? Vamos pensar fora da caixa, não é crime. As pessoas de ideias estagnadas acabam por discriminar quem está “cometendo o crime” de pensar algo novo. A discordância é natural, e até salutar, enquanto houver argumentos. O que não pode acontecer é a preguiça de pensar se contrapor a quem pensa!

E nesse contexto, o Projeto Novo Recife é a oportunidade de trazer a discussão do planejamento urbano à tona. O lote, por tudo que foi listado no início do texto, tem um protagonismo urbano que o transforma no melhor objeto de discussão dessa pauta. O tema é tão nobre que não interessa onde estávamos quando aconteceram outras aberrações aqui na cidade. Pouco importa. A verdade é que, a partir do nosso esclarecimento, estamos cobrando uma cidade melhor. E todos devem cobrar!

Para os que não se aprofundaram no tema, vale a reflexão. Converse com arquitetos e urbanistas, pesquise na internet como se desenvolvem outras cidades, leia outras mídias além dos medalhões, não se influencie com propaganda enganosa e nem se convença sem ponderação. Questione e busque esclarecimento. A cidade precisa que você reflita e diga o que espera dela. E depois de refletir, cobre! Nós já vimos que não adianta esperar que a nossa cidade caia do céu. Até porque antes de tocar o chão, ela precisa passar por cima de muita coisa.

Leitura complementar

http://goo.gl/VLJgMU Um breve resumo

http://goo.gl/sx6r3J Nada mais subdesenvolvido que o Novo Recife

http://www.novorecife.com.br/ A proposta do Consórcio

http://penserecife.tumblr.com/ Uma proposta alternativa

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