O Homem Carro

 

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Eduardo tinha um sonho. Comprar um carro! Podia ser qualquer um. Ele só não queria mais andar de ônibus e metrô. Sentia-se mal dividindo o mesmo espaço com pessoas, segundo ele, mal educadas, mal encaradas, fedorentas e que ouviam músicas ruins no celular sem fone de ouvido. Um dia ele conseguiu. Juntou as economias e comprou um seminovo qualquer. Eduardo passou a ir para todos os cantos com seu carro. Para o trabalho, academia, padaria, locadora. Viraram inseparáveis. O zelo de Eduardo era tamanho que, com o passar do tempo, ele passou a proibir as pessoas de entrarem no carro. Começou com os amigos, passou pela namorada e culminou com o dia em que ele socorreu sua mãe acidentada, de táxi porque não queria sujar o banco do carro com sangue. A partir desse ocorrido, todos começaram a perceber como Eduardo estava mudado desde a aquisição do carro. Os pais começaram a perceber que ele não dormia no seu quarto algumas noites, mas o carro não saía da garagem. Passaram semanas desconfiando onde ele estava passando essas noites até que descobriram que ele estava dormindo dentro do carro. No começo era 1 ou 2 noites por semana, mas chegou ao ponto de Eduardo não encostar mais em sua cama e passar a dormir todas as noites no carro. Até o dia que sua namorada, não aguentando mais dormir no banco de trás, colocou Eduardo contra a parede, ou contra o banco, pra ser mais preciso: “O carro ou eu!”. Foi aí que o amor prevaleceu. Ela parecia não acreditar, mas Eduardo ficou com o carro! Ela saiu cabisbaixa, com o cd player que havia dado no dia dos namorados na mão. Mal conseguiu ouvir a buzina de Eduardo pedindo para ela fechar a garagem. Quando se viu sem namorada, mas com o carro, Eduardo percebeu o que ele precisava pra ser feliz. E não teve dúvidas! Ligou para o chefe se demitindo, pegou as roupas no armário e decidiu não mais sair do carro. Nunca mais! Ali era o paraíso dele! Tantas pessoas viajam a vida toda a procura de paraísos e o dele estava ali na garagem, totalmente ao seu alcance. No começo os pais, os amigos de pelada e até o próprio chefe achavam que era brincadeira. Mas Eduardo levou a sério. Saía pela manhã, rodava a cidade inteira, enfrentando todos os trânsitos, mas com um sorriso impassível e eterno. Com os vidros fechados, ele ignorava o mundo ao seu redor. O calor, o barulho, a poeira, tudo era indiferente a Eduardo. Estava no paraíso ambulante dele! As refeições eram feitas em drive-thrus, os banhos com lenços umedecidos trazidos pelos pais, as necessidades eram feitas em recipientes ou penicos coletados, no fim do dia, pela empregada da casa dos pais. Eduardo só enfrentava algum tipo de problema quando decidia ir para lugares públicos com seu carro, como parques, praias, shoppings. Ele não se contentava em ficar nos estacionamentos. Em uma ocasião, quando cruzou por dentro de um shopping para encurtar caminho, causou pânico e correria na maioria das pessoas presentes. Mas já era possível perceber que algumas pessoas olharam aquele acontecimento com certa admiração e inveja. A partir desse ocorrido, Eduardo passou a ser conhecido na cidade como o Homem-Carro. Televisões, jornais, sites foram atrás da família dele em busca de informações sobre aquele cara diferente. Eduardo continuou sua saga sem ser afetado pelo reconhecimento que estava tendo nas ruas. Por onde ele passava havia pessoas buzinando, acenando e comemorando a chance de ver de perto o Homem-Carro. A movimentação foi tão grande que já se via lojas em shoppings e camelôs vendendo camisas com a estampa do Homem-Carro. Eduardo não percebia o que estava acontecendo porque estava sempre muito concentrado e envolvido com seu carro. Certa vez, atravessou a pista do aeroporto, de ponta a ponta, desviando de grandes aviões, felizmente sem provocar acidente. Este feito foi capa de todos os jornais da cidade e contribuiu para o, cada vez mais crescente, endeusamento do Homem-Carro. Todos ficavam esperando, e apostando, qual seria a sua nova façanha. Mas ele superava todas as expectativas. Hospitais, fóruns, boliches, igrejas, teatros, cinemas. Não havia lugares que o Homem-Carro não houvesse atravessado. Com o passar do tempo, e a crescente admiração que todos nutriam, começaram a surgir alguns seguidores de Eduardo. Cada vez mais pessoas, largavam suas vidas e começavam a viver em seus carros. Uma espécie de “automobihippies”. O trânsito foi ficando ainda pior porque as regras foram feitas para pessoas que usavam carros, e não pessoas que eram carros. Em pouco tempo os automobihippies tomaram a cidade. O Homem-Carro estava esquecido, afinal não era mais uma excentricidade. Os equipamentos públicos passaram a considerar os carros e não mais as pessoas. Houve uma revolução arquitetônica na cidade. Praticamente todos os edifícios tiveram de ser demolidos para dar espaço a outros que pudessem abrigar os automobihippies. Os cinemas, teatros e auditórios aboliram as poltronas e criaram salas cada vez maiores. Os apartamentos passaram a ter muito mais espaço para carros e menos para salas de jantar, de estar ou cozinha. A praia foi aterrada para que os automobihippies pudessem desfrutar da vista pro mar. Todos os restaurantes demitiram os garçons, músicos e entregadores, fizeram grandes reformas e passaram a ser apenas drive-thru. As praças, parques e feiras viraram grandes avenidas. Todas as árvores foram dizimadas abrindo espaço para mais carros. Alguns bairros antigos, que datavam da fundação da cidade, foram totalmente demolidos para criar novas vias e vagas. A medida que os automobihippies se multiplicavam, as pessoas que não tinham condições de comprar um carro passaram a vender suas casas para poder adquirir seu carro. Outras muitas que não tinham bens para se desfazer, acabavam por se suicidar. No auge dessa transformação urbana e social, o prefeito decidiu mudar o nome da cidade para Autocity, assim em inglês mesmo pra ficar mais moderno. Além de criar novas secretarias, como as da Fiat, da Volks e Chevrolet, entre outras. Mas chegou um dia que o Homem-Carro, antes conhecido como Eduardo, decidiu sair do carro. Antes de sair, ele pegou o caminho da casa de seus pais para reencontrá-los. Chegando no endereço não havia mais casa. Apenas carros estacionados com pessoas dormindo dentro deles. Eduardo não conseguia identificar se alguma dessas pessoas era seu pai ou mãe. Tinha de sair do carro para ver. E saiu! Abriu a porta, pôs os pés na rua e levantou-se lentamente. Olhou em volta e não viu nenhuma casa de seus antigos vizinhos. Só carros! E cada carro com uma pessoa dentro. Ele andou, com certa dificuldade, sentou na pista e chorou. Ele não tinha a mínima ideia de que havia sido o precursor dessa forma de viver a cidade. Chorou por querer a cidade, como ele lembrava, de volta. Eduardo passou a perambular pela cidade, e cada bairro que via o martirizava ainda mais. Dias e dias andando ao léu, entre carros. Eduardo era o único pedestre da cidade. Até o dia que ele não aguentou mais. Em mais uma experiência de quase atropelamento, Eduardo dessa vez não desviou. Deixou-se chocar contra aquele carro. Deitado e ensanguentado na pista, com o sol a pino queimando todo o seu corpo, sozinho, sem uma pessoa pra lhe socorrer, Eduardo se deixou morrer. Ele não sabia, mas mais uma vez estava sendo vanguarda.

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